Dia Internacional da Mulher – o óbvio difícil de se enxergar?

sonia reitora ifcÉ uma obviedade dizer que, há 45 anos, o mês de março é aludido pela passagem do Dia Internacional da Mulher. E que a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o dia 8 de março como um marco histórico, no qual se comemoram conquistas de direitos: direitos humanos, direito à igualdade, direito ao voto, direito ao uso de métodos contraceptivos, direito ao acesso à educação, direito à produção do conhecimento, direito de termos ou não filhos e constituirmos família, direito de sermos ou não “belas, recatadas e do lar”, direitos...

É uma obviedade dizer que, paradoxalmente, não se tem muito a comemorar, tendo em vista as diversas formas de violência que ainda nós, mulheres, sofremos, conforme evidenciam os dados divulgados pelo Monitor da Violência em 8 de março de 2019: “[…] a violência contra a mulher permanece como a mais cruel e evidente manifestação da desigualdade de gênero no Brasil. [...] A violência compõe um cotidiano perverso sustentado por relações sociais profundamente machistas.”

É uma obviedade dizer que, mesmo no campo da Educação, território supostamente feminino, os postos da alta gestão são ocupados e/ou exercidos por homens. No âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, a título de ilustração, desde sua criação em 2008, das 41 instituições que compõem a Rede, aproximadamente uma dezena de mulheres estiveram à frente das instituições, sendo que, no atual momento, 13 Institutos Federais são geridos por reitoras, a saber: na região Norte, IFAC, IFAP e IFRR; na região Nordeste, IF Sertão, IFBA, IFPE e IFS; na região Centro-Oeste, IFB e IFMS; na região Sudeste, IFTM; e, por fim, na região Sul, IF Farroupilha, IFSC e IFC. Do mesmo modo, no que respeita ao Conif, apenas uma mulher assumiu a presidência desde a constituição do referido Conselho.

CONIF 2020 248

É uma obviedade dizer que, dentre muitas obviedades, tanto os direitos quanto os não direitos são construções históricas e culturais, tecidas na complexa luta da e pela constituição da existência humana, e, de acordo com Paulo Freire, “Não haveria cultura nem história [...] sem curiosidade, sem liberdade sendo exercida ou sem liberdade pela qual, sendo negada, se luta.” Daí a importância da luta cotidiana e incansável pela igualdade entre homens e mulheres. Daí, diz ainda Freire, “[...] a importância de uma educação que, em lugar de procurar negar o risco, estimule mulheres e homens a assumi-lo. É assumindo o risco, sua inevitabilidade, que me preparo ou me torno apto a assumir este risco que me desafia agora e a que devo responder.”

É uma obviedade dizer que, após tanto tempo e tantos avanços sociais, científicos e tecnológicos, ainda seja necessária uma data para discutirmos questões tão óbvias.
Afinal, é uma obviedade dizer que “O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar.” (Clarice Lispector).

Sônia Regina de Souza Fernandes
Reitora do Instituto Federal Catarinense (IFC)

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